“Nada é verdade. Tudo é permitido” – o lema dos Assassinos, que durante os séculos protegeram o povo de ditadores e criminosos, quer dizer, dentre outras coisas, que não se deve medir esforços para alcançar seu objetivo. Que o mundo muda e que, quando necessário, eles devem mudar também. É exatamente isso que Assassin’s Creed: Brotherhood fez: na frente de uma ameaça maior, se reinventou para tornar-se o game de espionagem mais complexo e profundo do ano.
O novo capítulo da guerra contra os Templários traz de volta Ezio Auditore da Firenze e começa exatamente onde a história anterior terminou: com herói completamente desorientado, depois de descobrir alguns segredos do universo e que essa história não é só dele – é também de um tal “Desmond”. Depois de um retorno tranqüilo ao lar e de algumas reviravoltas, o Assassino da Renascença vai para Roma enfrentar a poderosa família Borgia. Mas ele aprende bem rápido que não conseguirá vencer essa guerra sozinho e que para isso ele deverá restaurar sua ordem à sua forma original. Uma Irmandade.
Mais do que uma novo sentido para a história, essa mudança transforma profundamente o jogo em si. Ao contrário da ACII, que se limitou a usar os mesmos conceitos do original, mas em escala bem maior, Brotherhood se redefine como uma mistura de Grand Theft Auto com Tenchu e um pouco de Sim City. E, acredite, isso é excelente.
Requiescat in pace
Em vez de levar sua lâmina às gargantas dos vilões por várias regiões da Itália, dessa vez Ezio passará grande parte da sua jornada em um único lugar: Roma. O problema é que, ao chegar lá, ele percebe que o lugar está todo dominado pelos seus inimigos e pelo medo. Lojas e estábulos interditados, aquedutos quebrados e enorme torres de vigilância mantêm o povo sob controle. A revolução, portanto, deve vir de baixo, do submundo. E é nesse ritmo de sabotagem que se desenrolam as dezenas de horas de jogo.
Andando furtivamente pelos quatro (gigantescos) distritos da capital italiana o seu objetivo é, aos poucos, retomar o terreno ocupado pelos vilões – o que começa nas fortalezas. Lembra das torres de sincronização, as quais era preciso escalar para revelar o mapa? Pois bem: agora elas têm guarnições de soldados, e só depois de matar o capitão e incendiar as bandeiras dos Borgia – para mostrar ao povo que a libertação está chegando – você vê a cidade revelar seus segredos.
Cada invasão desse tipo precisa ser feita com cuidado, para que o capitão da guarda não fuja e volte só no próximo turno. O cuidado com o silêncio e em enganar os guardas, em vez de simplesmente matá-los, faz tudo ficar mais emocionante.
Pouco a pouco você vai se tornando o dono da cidade. Você controla as lojas. Sua irmã, Claudia, vira gerente das Cortesãs. La Volpe comanda os ladrões e Bartolomeo, os mercenários, e cada uma dessas facções ainda pode ser alojada em prédios vazios para prestar seus serviços nas redondezas.
Mas a sensação de poder só é plena quando o herói começa a reunir a Irmandade, já algumas horas jogo adentro. Cidadãos oprimidos pelos guardas de Borgia podem ser salvos e recrutados para a sua causa, podendo ser usados nas batalhas do cotidiano ou em missões ao redor da Europa, sendo que esses trabalhos são todos gerenciados por um menu bem organizado, pelo qual também é possível ver o nível dos seus camaradas.
Imagine, agora, andar por uma cidade em alerta. Ezio é avistado de longe por um guarda, que se aproxima para averiguar o que está acontecendo. Você aperta um botão, o herói levanta a mão e solta um assovio. Do feno mais próximo, um dos seus discípulos surge, pula em cima do inimigo incauto e executa-o, fugindo antes que alguém perceba. Você é o dono da cidade. Há missões em que você não pode convocar os companheiros, mas enquanto eles estão disponíveis você se transforma em uma pessoa quase normal, só dando sinais de morte certa para os seus desafetos.
A sensação de poder e satisfação é inigualável. Comandar os Assassinos é uma experiência única.
Mesmo assim nem sempre é possível fugir de uma boa briga, e nisso Brotherhood também supera os capítulos anteriores. Junto com inimigos mais poderosos e inteligentes, que não desabam ao primeiro contra-ataque, vêm mais armas e golpes para despachá-los. A principal novidade é um “assassinato em sequência”: quando Ezio finaliza um oponente, pode finalizar outro automaticamente, se ele estiver próximo e não for rápido o suficiente para se defender. Apesar de parecer uma mudança simples, ela dá uma nova dinâmica para os combates.
As missões de assassinato, trabalhos das facções, tesouros, tumbas e quebra-cabeças estão espalhados por toda Roma, e um bom cavalo (ou túnel) é indispensável para andar de um canto a outro. Seja em tamanho, variedade ou quantidade de coisas para fazer, esse é o mais recheado dos Assassin’s Creed – mas sem ser repetitivo. Sempre há algo de novo acontecendo e aparecendo.
A liberação de Roma começou
Multiplayer não parecia uma coisa óbvia para se incluir em um Assassin’s Creed – pelo contrário, podia ser o último tipo de jogo para receber suporte online. Mas a Ubisoft provou que estava certa, criando uma integração inovadora de verdade.
Os modos não saem muito do tradicional mata-mata, é verdade. Mas a grande diferença está na mecânica, que aplica com perfeição os conceitos da campanha. Em uma sala podem existir até oito jogadores – entre médicos, cortesãs, executores etc – mas junto com eles existem dezenas, centenas de personagens controlados pelo computador. Você tem um alvo, alguém no meio da multidão, mas essa pessoa pode estar em qualquer lugar. Andando, sentada, escondida no feno... há uma bússola que aponta o caminho, mas ainda é preciso confirmar o alvo visualmente antes de passar a faca.
A regra da furtividade também vale: se qualquer personagem correr, o disfarce fica comprometido e aí, de um lado é preciso agilidade para alcançar o alvo e, do outro esperteza para usar becos e outros obstáculos para se safar. A ideia é tão simples, mas tão bem executada, que não dá pra se sentir orgulhoso depois de assassinar dois ou três inimigos sem se descoberto, e aí desafiar suas vítimas para a próxima partida.
Assim como a maioria dos games de tiro atuais, seu personagem ainda ganha habilidades especiais – como camuflagem e mais velocidade, que podem ser ativadas livremente – e outras, que só entram em ação depois de determinado número de mortes. Os níveis são vários e o espaço para personalização, também.
Com tudo isso a oferecer, Brotherhood não é simplesmente o melhor Assassins’s Creed. É também um dos melhores games do ano. Para quem é fã da saga, é praticamente obrigatório. E quem não é, agora tem um belo motivo para começar.



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